Sem conectividade não existe IA

Por Augusto Salomon, Presidente da Cirion Technologies no Brasil

Salvador, 25/06/2026 – A inteligência artificial domina as manchetes. Todos os dias surgem novos modelos, aplicações mais sofisticadas e previsões sobre o impacto da IA nos negócios, na economia e na sociedade. No entanto, existe um aspecto fundamental dessa transformação que recebe muito menos atenção: a infraestrutura de conectividade que torna tudo isso possível.

A verdade é simples: sem conectividade, não existe inteligência artificial em escala. O debate atual costuma concentrar-se nos modelos, nos algoritmos e no poder computacional dos data centers. Mas toda interação com uma plataforma de IA depende de uma cadeia complexa de transmissão de dados que conecta usuários, empresas, aplicações, nuvens e centros de processamento distribuídos pelo mundo.

Quando uma pessoa faz uma pergunta a um assistente virtual, uma empresa utiliza um copiloto corporativo ou uma plataforma analisa milhões de dados em tempo real, a informação percorre milhares de quilômetros em frações de segundo. Essa jornada só é possível graças a redes de fibra óptica, backbones internacionais, pontos de interconexão e sistemas de transporte de alta capacidade.

Uma mudança sem precedentes

A economia da IA está sendo construída sobre uma infraestrutura de conectividade sem precedentes.

Segundo a União Internacional de Telecomunicações (ITU), cerca de 6 bilhões de pessoas já utilizam a internet em 2025, o equivalente a aproximadamente três quartos da população mundial. Além disso, a cobertura 5G já alcança mais da metade da população global e responde por mais de um terço das assinaturas de banda larga móvel. Esse crescimento contínuo da conectividade é o que permite a expansão dos serviços digitais e, mais recentemente, da inteligência artificial.

Mas a IA está elevando a demanda por infraestrutura a um novo patamar. Um estudo da Gartner aponta que os investimentos globais em redes especializadas para inteligência artificial, conhecidas como AI Network Fabric, deverão crescer a uma taxa anual composta superior a 34%, alcançando US$ 37 bilhões até 2029. A consultoria destaca que os gargalos de infraestrutura de rede estão se tornando um dos principais desafios para a expansão dos ambientes de IA.

Isso ocorre porque a inteligência artificial não depende apenas de processamento. Ela depende da movimentação contínua de enormes volumes de dados entre usuários, aplicações, nuvens, data centers e plataformas distribuídas globalmente. Em outras palavras, o valor da IA não está apenas no modelo, mas na capacidade de transportar informações com velocidade, segurança e baixa latência.

É justamente nesse contexto que as redes de fibra óptica assumem um papel estratégico. A fibra continua sendo a tecnologia capaz de oferecer a combinação necessária de capacidade, estabilidade e escalabilidade para suportar o crescimento exponencial do tráfego digital. À medida que aplicações de IA generativa, análise preditiva, automação industrial e serviços em nuvem se tornam mais presentes no cotidiano das empresas, cresce também a necessidade de redes cada vez mais robustas.

Não basta conectar cidades ou países

A inteligência artificial é, por definição, uma tecnologia global. Seus modelos são treinados em ambientes distribuídos, seus dados são armazenados em múltiplas regiões e suas aplicações operam simultaneamente em diferentes mercados. Por isso, os backbones internacionais tornaram-se tão relevantes quanto os próprios data centers.

Quando uma empresa latino-americana utiliza uma plataforma de IA hospedada em ambientes multinuvem, o tráfego frequentemente atravessa fronteiras e oceanos antes de retornar ao usuário. A eficiência dessa operação depende da qualidade da infraestrutura internacional disponível.

Outro elemento cada vez mais decisivo é a interconexão. À medida que o ecossistema digital se torna mais distribuído, empresas precisam conectar-se diretamente a provedores de nuvem, plataformas digitais, parceiros de negócios e ambientes de processamento de IA. Quanto mais eficiente for essa interconexão, menor será a latência, maior será a performance das aplicações e melhor será a experiência dos usuários.

Transformação que impacta a economia

Essa tendência acompanha uma transformação econômica de grandes proporções. De acordo com a GSMA, as tecnologias e serviços móveis geram atualmente cerca de US$ 6,5 trilhões para a economia global, o equivalente a 5,8% do PIB mundial. A entidade projeta que esse impacto alcance aproximadamente US$ 11 trilhões até 2030, impulsionado principalmente pela digitalização, pela inteligência artificial e pela evolução das redes de conectividade.

Ao mesmo tempo, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) destaca que infraestrutura digital, conectividade internacional, data centers e capacidade computacional estão se consolidando como ativos estratégicos para a competitividade dos países na economia digital.

Para a América Latina, esse cenário representa uma oportunidade única. A região está atraindo investimentos em data centers, ampliando a adoção de serviços em nuvem e acelerando a transformação digital de empresas e governos. Mas o verdadeiro potencial desse crescimento dependerá da capacidade de construir uma infraestrutura capaz de conectar esses ecossistemas de forma eficiente e resiliente.

Uma revolução muito maior

A inteligência artificial não é apenas uma revolução de software. Ela é também uma revolução de infraestrutura. Por trás de cada resposta gerada por um modelo de IA existe uma rede invisível de fibras ópticas, sistemas de transporte de dados, conexões internacionais e ambientes de interconexão trabalhando em tempo real.

Por isso, quando discutimos o futuro da inteligência artificial, precisamos ampliar o olhar além dos algoritmos. A próxima grande vantagem competitiva não estará apenas em quem desenvolve os melhores modelos, mas também em quem constrói as redes capazes de sustentá-los. Porque, no fim das contas, sem conectividade não existe IA.

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