IA: o Brasil quer liderar ou apenas regulamentar?

Por Francisco Camargo, CEO da CLM

Salvador, 25/06/2026 – A inteligência artificial deixou de ser apenas uma discussão tecnológica, assumindo destaque na estratégia econômica, industrial e geopolítica dos países. O que está em disputa agora não é somente quem terá os melhores algoritmos, mas sim quem terá infraestrutura, energia, data centers, capital, talentos, segurança jurídica e capacidade empresarial para transformar IA em produtividade, soberania e crescimento.

Por isso, o debate brasileiro sobre regulação precisa ser feito com responsabilidade, mas também com pragmatismo. Regular é necessário. Nenhuma sociedade deve ignorar riscos ligados à privacidade, discriminação, propriedade intelectual, segurança, transparência ou ao uso indevido de sistemas automatizados. O ponto é que o Brasil não pode entrar na era da IA apenas como regulador do que outros países vão desenvolver, treinar e hospedar.

Enquanto avançamos nas discussões sobre o Projeto de Lei 2338/2023, principal proposta brasileira para tratar do desenvolvimento, fomento e uso ético e responsável da IA, outras economias estão acelerando a construção da infraestrutura que sustentará essa nova etapa tecnológica.

O avanço fulgurante da inteligência artificial fez com que ela deixasse de ser apenas uma tecnologia de software para se transformar rapidamente em infraestrutura crítica, assim como telecomunicações, internet e energia. A escala ficou tão grande que a medida de dimensão dos data centers mudou de metros quadrados para a capacidade energética. Segundo a Associação Brasileira de Data Center (ABDC), o Brasil alcançou 1 gigawatt de capacidade de TI comissionada no primeiro trimestre de 2026, um marco relevante para a liderança do país na América Latina.

Ainda assim, a comparação internacional mostra a dimensão do desafio: o Stargate, anunciado pela OpenAI, Oracle e SoftBank, mira 10 gigawatts de capacidade com um compromisso de investimento de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA nos EUA, uma escala equivalente a dez vezes a nossa capacidade de TI comissionada atual. Isso evidencia que a disputa global por IA também passou a ser uma disputa por energia, território, capital, engenharia e velocidade de execução.

Esses números mostram que IA avançada não nasce apenas de software. Ela exige data centers, chips, redes, energia, refrigeração, engenharia, financiamento e modelos de operação. Ou seja, exige uma base física e econômica que muitos países ainda tratam como detalhe técnico, quando na verdade é parte central da competitividade.

A França compreendeu essa lógica. Em fevereiro de 2025, o governo francês anunciou um pacote de €109 bilhões em investimentos privados voltados à IA. Em paralelo, França e Emirados Árabes Unidos firmaram acordo para desenvolver um data center de IA de até 1 gigawatt, com investimento estimado entre US$ 30 bilhões e US$ 50 bilhões. A Argentina também buscou se posicionar nesse mapa, com uma carta de intenções entre OpenAI e Sur Energy a fim de explorar um projeto de data center de larga escala no país, noticiado pelo Reuters como um potencial investimento de US$ 25 bilhões e capacidade planejada de até 500 megawatts.

O Brasil não está paralisado, mas ainda está em uma etapa diferente da corrida. Enquanto Estados Unidos e França já anunciam compromissos bilionários em infraestrutura de IA, e a Argentina tenta se posicionar com um projeto de data center ligado à OpenAI, o Brasil combina um plano público de R$ 23 bilhões com iniciativas recentes para atrair data centers e ampliar sua infraestrutura digital. A diferença é que, até agora, nossa ambição ainda aparece mais como potencial regulatório e econômico do que como infraestrutura contratada, capacidade computacional instalada e projetos de IA em escala global.

Temos ativos para competir, porém, precisamos transformar intenção em execução, plano em investimento e regulação em ambiente de confiança para capital, infraestrutura e inovação. E não podemos esquecer que temos energia limpa, território, talento e uma base empresarial acostumada a operar em ambientes regulados. O desafio é alinhar regulação, investimento e execução.

O PL 2338 nasce da preocupação legítima de criar regras para uma tecnologia de alto impacto, entretanto é preciso evitar que uma regulação bem-intencionada se transforme em barreira de entrada para quem quer desenvolver, treinar, testar, aplicar e escalar IA.

Relatório do ITS Rio apontou que as 68 obrigações previstas no projeto, número superior às 43 do AI Act europeu, poderiam comprometer 54% das ações imediatas previstas no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Além disso, carta encaminhada ao Senado por 13 entidades, incluindo a ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software), alertou para a necessidade de ajustes no texto, de modo a preservar direitos sem inviabilizar inovação, treinamento de modelos e desenvolvimento tecnológico local.

A questão, portanto, não é escolher entre responsabilidade e inovação. Essa é uma falsa oposição. A pergunta correta é como criar um ambiente em que a IA seja segura, auditável e confiável, mas também economicamente viável, competitiva e desenvolvida dentro do país?

Para os C-Level e conselhos de administração, esse debate precisa sair da esfera exclusivamente jurídica. A regulação da IA afetará decisões de investimento, escolha de fornecedores, localização de dados, governança de modelos, riscos contratuais, segurança cibernética, produtividade e até avaliação de empresas. Quem tratar o tema apenas como obrigação de compliance provavelmente chegará tarde. Quem enxergar a IA como infraestrutura de negócio poderá transformar a regulação em vantagem competitiva.

Nesse contexto, o papel de um distribuidor de valor agregado ganha relevância não pela venda de tecnologia, mas pela capacidade de traduzir inovação em aplicação prática. Em mercados complexos, a tecnologia raramente chega pronta ao cliente final. Ela precisa ser compreendida, combinada, testada, protegida, integrada e sustentada. Essa camada de tradução entre tendência global e necessidade real de negócio será ainda mais importante na era da IA.

O Brasil tem condições de ocupar papel relevante nessa nova economia, mas precisa decidir que papel deseja exercer. Podemos ser apenas um mercado que consome aplicações estrangeiras e regula sistemas desenvolvidos fora daqui. Ou construir um ambiente no qual as empresas brasileiras e internacionais encontrem condições para investir, treinar modelos, operar data centers, desenvolver talentos, criar aplicações setoriais e exportar conhecimento.

A responsabilidade em IA deve ser uma vantagem brasileira, não uma âncora. Para isso, a legislação precisa ser clara, proporcional e compatível com a realidade de quem inova. O país deve proteger direitos, mas também proteger sua capacidade de competir. Deve exigir governança, mas sem transformar qualquer projeto em um labirinto jurídico. Deve olhar para riscos, mas também para oportunidades.

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