Fortalecemos a I.A. Mas e a I.N.?

Por Marco Silva e Silva, diretor-executivo da GFT Tecnologies no Brasil

Salvador, 02/07/2026 – Nunca foi tão fácil parecer produtivo. E, talvez por isso, nunca tenha sido tão importante continuar pensando por conta própria. Sou um entusiasta declarado e usuário diário da Inteligência Artificial (IA). Defendo seu potencial inquestionável de eliminar tarefas repetitivas, acelerar processos e abrir espaço para o pensamento estratégico. Contudo, o debate sobre a IA há muito tempo deixou de ser exclusividade dos departamentos de tecnologia para ocupar o centro da nossa rotina corporativa, trazendo consigo um paradoxo incômodo: implementamos ferramentas em larga escala para reduzir o trabalho burocrático e aliviar a pressão sobre as equipes, mas o que testemunhamos ao redor são recordes de esgotamento mental, ansiedade e uma crescente dependência de respostas prontas.

O problema não reside na tecnologia em si, mas na forma passiva como estamos reagindo a ela, trocando o esforço analítico pela mera gestão de comandos e terceirizando nossa capacidade de reflexão. Essa inquietação ganha contornos científicos quando revisitamos o chamado Efeito Flynn, que documentou o aumento médio de cerca de dois a três pontos de QI por década em diversos países ao longo do século 20. O sinal de alerta surgiu quando essa curva começou a se inverter.

Um estudo liderado por Bjørn Bratsberg e Ole Rogeberg, analisou mais de 730 mil recrutas militares noruegueses e mostrou que os escores cognitivos atingiram o pico na coorte de 1975 e vêm declinando cerca de 0,2 ponto por ano desde então. Como esse declínio foi observado inclusive dentro das mesmas famílias, com irmãos mais novos pontuando menos que os mais velhos, os pesquisadores descartaram explicações genéticas e apontaram fatores ambientais como principal causa. Uma revisão sistemática publicada na em uma revista encontrou tendência semelhante em diversos países desenvolvidos.

A IA Generativa não explica, sozinha, esse fenômeno, mas amplia um comportamento que merece atenção. Em um estudo experimental publicado em 2025, pesquisadores observaram que participantes que utilizaram o ChatGPT concluíram tarefas de escrita mais rapidamente, porém apresentaram menor engajamento cognitivo e menor retenção do conteúdo produzido. Os autores descrevem esse fenômeno como uma espécie de “dívida cognitiva”: o cérebro executa a tarefa, mas retém significativamente menos conhecimento do processo. Trata-se de uma dinâmica que guarda semelhanças com a aviação comercial, em que pilotos excessivamente dependentes da automação podem apresentar perda de habilidades críticas quando precisam assumir o controle manual em emergências.

Essa percepção é reforçada por outra pesquisa. O levantamento mostrou que, quanto maior a confiança depositada na IA, menor tende a ser o esforço de pensamento crítico empregado pelos profissionais. Em contrapartida, aqueles que demonstravam maior confiança em seu próprio conhecimento eram justamente os que mais questionavam, validavam e refinavam as respostas produzidas pela tecnologia. Os pesquisadores chamam atenção para o risco da chamada “convergência mecanizada”: quando todos passam a aceitar sugestões semelhantes sem reflexão adicional, ideias, soluções e estratégias tornam-se progressivamente mais homogêneas.

No fim das contas, os modelos de IA são treinados a partir de enormes volumes de dados produzidos anteriormente. São extraordinários para reconhecer padrões, sintetizar conhecimento e acelerar decisões. Mas criatividade, inovação e visão de futuro dependem da capacidade humana de imaginar aquilo que ainda não existe. Por isso, acredito que o diferencial competitivo das próximas décadas estará menos na capacidade de utilizar IA e mais na habilidade de exercer julgamento independente, liderança, empatia e pensamento crítico, atributos que continuam sendo essencialmente humanos.

A tecnologia deve atuar como um amplificador cognitivo, ajudando-nos a administrar a avalanche diária de informações e liberando tempo para atividades de maior abstração. O erro começa quando uma ferramenta de apoio passa a substituir o intelecto. Esse desafio também se estende à educação. Não basta alfabetizar as novas gerações para o uso da IA; será igualmente necessário fortalecer a curiosidade, a argumentação, a autonomia intelectual e a capacidade de formular boas perguntas. Em um mundo repleto de respostas instantâneas, pensar continuará sendo uma vantagem competitiva.

Essa preocupação extrapola o ambiente corporativo. Hoje valorizamos produtos “feitos à mão” ou a tradicional “comida caseira” justamente porque representam autenticidade em um mundo cada vez mais automatizado. Talvez estejamos caminhando para algo semelhante na produção intelectual e artística. A inauguração, em junho deste ano, do Dataland, em Los Angeles (um museu dedicado exclusivamente a obras produzidas por IA) simboliza essa nova era. É um avanço tecnológico fascinante. Ainda assim, espero que nunca chegue o dia em que uma livraria precise reservar uma seção intitulada “Escrito por Humanos”. Se isso acontecer, talvez tenhamos deixado de valorizar justamente aquilo que tornou possível criar a própria IA: a nossa Inteligência Natural (IN).

A IA continuará evoluindo em ritmo exponencial, e essa é uma excelente notícia. O verdadeiro diferencial competitivo do futuro, entretanto, não pertencerá a quem utiliza mais tecnologia, mas a quem souber utilizá-la sem renunciar ao esforço cognitivo que nos tornou humanos. Como alerta Yuval Noah Harari, uma das grandes questões da nossa era será preservar a confiança entre as pessoas em meio às transformações tecnológicas. Eu acrescentaria outra: preservar a confiança na nossa própria capacidade de pensar. Afinal, se não cuidarmos deliberadamente da nossa IN, nenhum algoritmo fará isso por nós.

E você, o que tem feito para manter a sua IN em dia no meio de tanta IA?

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