O efeito Bet no bolso: como o Pix para apostas redesenha a inadimplência

Por Thiago Oliveira, CEO e fundador da Monest

Salvador, 08/07/2026 – Sempre me questionam por que a inadimplência continua crescendo, mesmo em momentos de desemprego em baixa. O cartão de crédito é apontado como o “grande vilão”, representando cerca de 60% das dívidas em aberto no Brasil. Mas, será que ele está sozinho nessa?

Tudo começa com a ilusão de poder de compra, depois vêm os juros elevados comprometendo a renda. Essa “festa do descontrole” é um baile de máscaras, visto que o brasileiro tem (em média) cinco cartões de crédito diferentes. É aí que o risco real de superendividamento fica, de certa forma, disfarçado.

O que os indicadores tradicionais estão demorando a captar é uma drástica mudança no comportamento do consumidor: as Bets.

Elas estão criando uma nova bola de neve no orçamento familiar e afetando a saúde mental dos apostadores (ludopatia). Por isso, as instituições financeiras, educacionais e até mesmo varejistas precisam rever o perfil do devedor no Brasil.

A ILUSÃO DO DINHEIRO RÁPIDO E A DOPAMINA DO PIX

O Pix representa mais de 30% das transações financeiras do país, superando as com cartões de crédito e débito. Porém, essa mesma facilidade de pagamento, combinada à recompensa quase instantânea e gamificada das plataformas de apostas, criou um ciclo vicioso de dopamina.

A digitalização fez com que o jogo passasse a morar no bolso do brasileiro, a um clique de distância. O resultado disso?

Segundo pesquisa do PoderData, em 2025, o setor movimentou R$ 37 bilhões, alcançou mais de 25 milhões de apostadores e investiu R$ 1,4 bilhão em propaganda. Efeito colateral: quase metade da população (49,7%) está inadimplente. Mais de 81,2 milhões de pessoas, de acordo com o Serasa.

O FEITO PSICOSSOCIAL NO BRASIL

O problema deixou de ser apenas a oferta de crédito. Tornou-se estrutural e psicossocial. A classe C passou a enxergar as Bets como forma de mudar de classe social ou “sair da lama”.

O Serasa pesquisou e constatou: 44% apostaram como uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro para pagar débitos preexistentes. Por outro lado, 57% dos endividados não possuíam restrições no CPF antes de começar a jogar. Fica claro que, quando a sobrevivência vira jogo, dignidade é a primeira moeda a sair de circulação.

Na Monest, eu sempre defendo a premissa de que ninguém deve porque quer. Quem deve intencionalmente tem outro nome. A grande maioria entra em inadimplência por falta de condições, desorganização ou, como vemos agora, por armadilhas comportamentais.

Muito se fala sobre educação financeira. Mas tentar educar alguém no momento em que a pessoa já está em desespero não funciona; afinal, você não ensina alguém a nadar enquanto a pessoa está se afogando.

O PRÓXIMO GRANDE FOCO DE ATENÇÃO

A busca por dinheiro rápido impacta diretamente no poder de consumo, na capacidade de pagamento, e até mesmo no orçamento de saúde pública. É hora do mercado acordar e adotar uma nova estratégia. Afinal, a inadimplência atual, impulsionada pelas Bets, não se resolve ajustando taxas de juros ou acionando chat bots comuns. Neste ponto, não pretendo ditar uma “solução” única e universal, mas sugerir alguns movimentos.

1º passo: reconhecer que Bet não é mero entretenimento e mapear estrategicamente os diferentes tipos de devedores para adaptar o tom.

2º passo: atualizar as ferramentas de relacionamento e buscar tecnologias conversacionais com IA e que sejam profundamente analíticas; principalmente, quanto ao comportamento.

Com isso em mente, temos um fato que todo líder concorda: a nova abordagem de cobrança requer dados dinâmicos e fluidez no diálogo. Nesse contexto, a verdadeira inovação é preservar o vínculo com o cliente, em vez de constrangê-lo ainda mais.

É sempre bom lembrar: conversar com qualidade é construir uma ponte enquanto se caminha sobre ela.

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