Como equipes B2B estão reconfigurando papéis e expectativas com agentes autônomos

Por Ronald Dener, engenheiro da computação pelo Centro de Informática da UFPE (CIn/UFPE) e CEO e cofundador da Capyba Software

Salvador, 22/07/2026 – Durante décadas, a tecnologia foi utilizada para aumentar a produtividade das equipes sem alterar profundamente a lógica do trabalho corporativo. CRMs, plataformas de automação, ferramentas analíticas e sistemas colaborativos ajudavam profissionais a executar suas atividades com mais eficiência, mas as decisões e a coordenação dos processos continuavam essencialmente humanas. A ascensão dos agentes autônomos de inteligência artificial inaugura uma mudança diferente. Pela primeira vez, empresas começam a incorporar sistemas capazes de executar tarefas, tomar decisões dentro de parâmetros definidos e coordenar fluxos de trabalho de forma independente.

O impacto vai além da adoção de uma nova tecnologia. O que está sendo redesenhado é a própria estrutura do trabalho intelectual nas organizações. Segundo a pesquisa State of AI 2025, da McKinsey, 62% das empresas já estão experimentando agentes de IA ou conduzindo projetos-piloto relacionados ao tema. Ao mesmo tempo, o Gartner projeta que 40% dos aplicativos corporativos incorporarão agentes especializados até o final de 2026, frente a menos de 5% em 2025.

No ambiente B2B, essa transformação é especialmente relevante porque grande parte do trabalho corporativo envolve atividades estruturadas e baseadas em conhecimento. Em áreas como vendas, marketing, atendimento, operações e finanças, agentes autônomos já conseguem pesquisar informações, consolidar dados, produzir análises, executar processos e recomendar ações com pouca intervenção humana.

Nas equipes comerciais, por exemplo, esses sistemas podem identificar oportunidades, reunir informações sobre contas estratégicas, personalizar abordagens e automatizar etapas do relacionamento com clientes. A McKinsey estima que a IA generativa tenha potencial para adicionar entre US$800 bilhões e US$1,2 trilhão em produtividade global para funções de marketing e vendas. Como consequência, o papel dos profissionais passa a se concentrar menos em atividades operacionais e mais em negociação, construção de relacionamento e tomada de decisão estratégica.

O mesmo movimento ocorre em marketing. Equipes que antes dedicavam grande parte do tempo à produção manual de relatórios, análises e conteúdos passaram a atuar cada vez mais como curadoras e estrategistas. O diferencial competitivo deixa de estar na execução mecânica e passa a residir na capacidade de formular hipóteses, interpretar cenários e transformar dados em decisões de negócio.

Em atendimento ao cliente, as mudanças podem ser ainda mais expressivas. O Gartner prevê que, até 2029, agentes autônomos resolverão 80% das solicitações comuns de suporte sem intervenção humana, reduzindo em cerca de 30% os custos operacionais dessas áreas. Nesse cenário, profissionais passam a concentrar esforços em situações complexas, retenção de clientes e gestão de relacionamento, atividades em que contexto, empatia e julgamento continuam sendo diferenciais humanos.

Essa transformação aponta uma redefinição das competências mais valorizadas. À medida que agentes assumem tarefas operacionais, cresce a demanda por profissionais capazes de supervisionar sistemas, desenhar fluxos de trabalho, estabelecer regras de governança e avaliar resultados. Nesse sentido, o trabalho humano migra progressivamente da execução para a coordenação.

O desafio, porém, não é apenas tecnológico. Embora 88% das empresas já utilizem inteligência artificial em pelo menos uma função corporativa, poucas conseguiram integrá-la efetivamente aos seus modelos operacionais. As organizações que obtêm melhores resultados são justamente aquelas que tratam a IA como parte dos processos de negócio, e não apenas como uma ferramenta isolada de produtividade.

Por isso, a principal discussão sobre agentes autônomos reside na forma como as empresas reorganizam suas equipes e processos. Questões como governança, supervisão, transparência e responsabilidade tornam-se cada vez mais importantes à medida que sistemas passam a executar ações em nome da organização.

O que emerge desse cenário é um modelo de trabalho híbrido, no qual pessoas e agentes digitais atuam de forma complementar. A ascensão dos agentes autônomos mostra que a próxima etapa da transformação digital será determinada pela capacidade das organizações de redesenhar papéis, expectativas e formas de colaboração para um ambiente em que humanos e inteligência artificial passam a trabalhar lado a lado na geração de valor.

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