A transformação digital começa na tecnologia, mas só acontece de verdade com a confiança da operação

Por Marcos Reis, CEO e fundador da Mercurius Cybersecurity

Salvador, 14/07/2026 – Durante décadas, a mineração representou maquinário pesado, infraestrutura física e operações em campo. Hoje, o setor está em profunda transformação impulsionada por dados, inteligência artificial, automação e conectividade. A mineração moderna apoia-se em sistemas capazes de processar informações em tempo real, além de coordenar equipamentos autônomos e otimizar a produção através de algoritmos. Isso representa uma oportunidade para aumentar a eficiência dessa indústria, que enfrenta quedas de produtividade, mas traz um desafio grande: a cibersegurança.

Conforme as operações mineradoras incorporam tecnologias conectadas, a superfície de exposição a riscos cresce. Caminhões autônomos, sensores IoT, sistemas SCADA, plataformas de análise de dados e infraestruturas híbridas fazem parte de um ecossistema cada vez mais complexo e interdependente. No entanto, muitas organizações primeiro implementam a inovação, e só depois avaliam como protegê-la.

A cibersegurança não é uma etapa posterior ao processo de transformação digital. Os incidentes mais recentes mostram que o elo mais vulnerável nem sempre está dentro da própria empresa. Em muitos casos, os ataques têm origem em terceiros com acesso a ambientes operacionais. Uma credencial comprometida, uma conexão remota mal gerenciada ou um fornecedor com controles insuficientes podem se tornar a porta de entrada para sistemas que impactam diretamente a produção.

Um levantamento da Claroty aponta que 76% dos ataques cibernéticos ao setor tiveram origem em acessos de terceiros a ambientes OT e IoT, enquanto 72% das organizações admitem não possuir visibilidade completa dessas conexões externas. Isso demonstra que o desafio também encontra-se na gestão segura de todo o ecossistema conectado à operação. Quando isso acontece, um problema que começou no ambiente corporativo pode acabar afetando processos físicos essenciais, gerando interrupções operacionais, perdas financeiras e riscos à continuidade dos negócios.

Além disso, o cenário de ameaças evoluiu e já não se trata apenas de ransomware ou cibercrime tradicional. Segundo o Relatório Global de Ameaças 2026 da CrowdStrike, houve um aumento de 89% nos ataques conduzidos por adversários habilitados por inteligência artificial e de 42% na exploração de vulnerabilidades de dia zero antes de sua divulgação pública. Em ambientes industriais, isso reduz significativamente o tempo disponível para detectar e conter incidentes antes que atinjam sistemas vitais.

Operações ligadas a minerais estratégicos, como cobre, lítio e terras raras, tornaram-se ativos de interesse geopolítico. Grupos avançados buscam acesso a informações sensíveis, propriedade intelectual ou até mesmo posicionamento dentro de infraestruturas para possíveis cenários futuros. Uma pesquisa baseada no Global Cybersecurity Outlook 2026 do Fórum Econômico Mundial mostra que 64% das empresas avaliam que as tensões geopolíticas aumentaram sua exposição a ameaças cibernéticas. O dado reforça a crescente convergência entre segurança digital, competitividade econômica e soberania tecnológica.

Durante a edição de 2026 do Mining Innovation Summit, a minha palestra abordou justamente a necessidade de incorporar a resiliência digital desde a concepção dos projetos de transformação tecnológica, e não como uma medida corretiva aplicada posteriormente. Qualquer iniciativa de inteligência artificial, automação ou digitalização desenvolvida sem uma estratégia de cibersegurança desde sua concepção incorpora uma vulnerabilidade potencial ao negócio.

Por outro lado, quando a cibersegurança faz parte da arquitetura inicial, ela atua como um facilitador do crescimento, permitindo inovar com confiança, acelerar a adoção tecnológica e garantir que a operação continue confiável. A próxima etapa da mineração será cada vez mais digital. A questão que fica é se as empresas estão preparadas para proteger aquilo que tornará essa inovação possível. A transformação digital só escala quando a operação confia nos sistemas que a sustentam.

Últimas notícias