Entre a Promessa e o Impacto: O Que Realmente Sustenta Transformações Tecnológicas

Por Carla Carvalho, Managing Director da Axians no Brasil

Salvador, 23/09/2025 – Num cenário no qual a inteligência artificial ocupa espaço de destaque nas agendas corporativas, é comum ouvir, em conversas com outros líderes, uma inquietação recorrente: a distância entre promessa e impacto real é maior do que parece. O discurso é sedutor, mas a prática expõe um caminho de decisões complexas, ajustes de rota e obstáculos invisíveis desde o planejamento. É nesse intervalo que surge a pergunta inevitável: por que, mesmo com tanto investimento e empenho, o retorno ainda não veio? Muitas vezes, a resposta está menos em recursos e mais na clareza de propósito, no alinhamento estratégico desde o topo e na disciplina para medir o que realmente importa.

Os números confirmam essa lacuna. Segundo a McKinsey, 71% das empresas já utilizam IA ou tecnologias emergentes em pelo menos uma área, mas somente 1% atingiu maturidade. Dois terços permanecem presos a pilotos que não evoluem, 97% têm dificuldade para demonstrar impacto no negócio e menos de 20% redesenharam processos de ponta a ponta. Não para por aí. Apenas 28% contam com supervisão direta do CEO ou do conselho. Transformação não nasce de ações isoladas, mas de integração estratégica, métricas consistentes e patrocínio ativo da alta liderança.

Esse enredo se repete. Big data, blockchain, IoT — todos viveram ciclos de euforia, adoção apressada e frustração por falta de clareza sobre o problema a resolver. Com a IA, o padrão é o mesmo. Quando limitada a automação, perde-se seu potencial de enfrentar desafios complexos, remodelar operações e criar novas vantagens competitivas. Sem análise estratégica sobre o que transformar, os projetos tendem a ser superficiais, incapazes de justificar o investimento ou gerar impacto duradouro.

O erro muitas vezes acontece antes da implementação. Projetos iniciados apenas para “não ficar para trás” ignoram a questão central: qual problema crítico precisa ser resolvido? Sem essa resposta, surgem soluções fragmentadas e ganhos marginais, com pouca influência nos indicadores que importam.

A governança é decisiva. A pressão por resultados rápidos abre espaço para atalhos perigosos — como uso de ferramentas abertas sem controle de dados sensíveis. Em 2025, segundo a Netskope, 72% dos usuários de IA generativa acessam ferramentas por contas pessoais, expondo informações e gerando riscos de compliance. Cabe à liderança estabelecer diretrizes, alinhar expectativas e garantir uso seguro e estrategicamente orientado.

Nada disso se sustenta sem cultura organizacional. Transformações profundas não emergem de baixo para cima: precisam de patrocínio visível da liderança, comunicação clara sobre o porquê e o como, e consistência ao longo do tempo.

É aí que uma estratégia integrada, ancorada na liderança ativa e na clareza de objetivos, faz diferença real. Quando executivos e equipes compreendem profundamente as prioridades do negócio, surgem caminhos para transformar ambição em planos concretos, priorizar frentes de impacto e evitar dispersão. Mais do que entregar tecnologia, trata-se de integrá-la nos processos, com etapas bem definidas, indicadores claros e ajustes constantes. Abordagens como o design thinking ajudam a clarificar o que resolver e a construir um caminho feito de conversas, discussões francas, estudo, conhecimento do negócio e envolvimento de diversos stakeholders. Essa combinação de direção estratégica, medição consistente e capacidade de adaptação tira a IA do discurso e a coloca no centro da geração de valor.

Tecnologias só geram valor real quando servem a uma visão transformadora, que vá além da automação e redesenhe estruturas. Isso exige escolher casos de uso que desafiem o status quo, repensem processos e abram novas frentes de competitividade sustentável — com coragem para ajustar o curso e resiliência para sustentar a jornada. Resultado imediato é exceção; o que se exige é visão, disciplina e liderança. Quando a tecnologia deixa de ser acessório e se torna núcleo estratégico, o impacto deixa de ser promessa e passa a ser realidade.

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