Diversidade na tecnologia
Lições de uma trajetória profissional não linear
Por Nina Sekiguchi, embaixadora da Everpure para a Ásia-Pacífico e Japão
Salvador, 12/03/2026 – A importância da diversidade para os negócios já é evidente há anos. Ainda assim, essa clareza nem sempre se traduziu em senso de urgência. Agora chegamos a um momento decisivo: se hesitarmos, a confiança do cliente será afetada por soluções falhas ou sistemas de IA que não atendem às suas necessidades.
Para empresas globais de tecnologia, o pensamento homogêneo tem um custo específico: produtos pensados para um mundo que, na prática, não existe. Quando há apenas uma forma de pensar, é fácil ignorar diferenças importantes, como ambientes regulatórios locais, restrições dos clientes e dinâmicas específicas de cada mercado. O resultado costuma ser uma adoção mais lenta, maior risco de não conformidade e oportunidades que acabam sendo perdidas. Equipes com experiências diversas percebem esses fatores de forma mais natural, justamente porque muitas vezes já lidaram com essas realidades na prática.
O tema do Dia Internacional da Mulher deste ano, “Dar para Receber”, resume bem essa lógica: quando as empresas investem em diversidade e escutam diferentes vozes, passam a ter as perspectivas necessárias para desenvolver tecnologias que realmente funcionem para todos. Como indivíduos, também precisamos nos desafiar a aprender coisas novas, sair da zona de conforto e ouvir outros pontos de vista, abrindo espaço para novas ideias. É algo que procuro praticar ao longo da minha carreira e que contribui muito para fortalecer o pensamento crítico e melhorar os resultados.
Vantagem externa
A inovação surge quando a compreensão do cliente, o conhecimento de contexto e a capacidade técnica se encontram. Equipes formadas por pessoas com experiências diversas e trajetórias em diferentes setores tendem a chegar a esse ponto de forma mais natural, justamente porque já enfrentaram situações semelhantes em outros ambientes. No meu caso, algumas decisões mais ousadas vieram em momentos desafiadores e acabaram me tirando da zona de conforto. Com o tempo, essas escolhas trouxeram autoconhecimento, crescimento pessoal e o desenvolvimento de novas habilidades.
Por exemplo, servir nas forças armadas por vários anos trouxe uma experiência importante na tomada de decisões sob pressão. Em muitas situações não há manual de instruções, o trabalho precisa ser feito e nem sempre existe um horário fixo para encerrar o dia. Nesse contexto, disciplina, determinação e capacidade de resolver problemas são essenciais para garantir que tudo seja concluído, algo que acabou desenvolvendo em mim uma inclinação permanente para a ação. Minha experiência no setor público acrescentou outra perspectiva igualmente valiosa, ao trazer uma visão prática de como políticas públicas, restrições orçamentárias e sistemas legados moldam o que de fato é possível alcançar na prática, e não apenas na teoria. Já o setor de tecnologia empresarial se mostrou um ambiente interessante, dinâmico e estimulante, que despertou meu interesse e ampliou meu entendimento sobre as necessidades dos clientes e novas formas de resolver problemas, além de reforçar como a oportunidade de requalificação é essencial para o desenvolvimento profissional no curto e no longo prazo.
Líderes que trazem experiências de vida diversas e trajetórias profissionais não lineares tendem a enriquecer o processo de tomada de decisões. Esse repertório mais amplo ajuda a questionar pressupostos, identificar pontos cegos e manter as equipes atentas a uma pergunta fundamental: para quem sua tecnologia realmente foi criada? Ao longo do tempo, a disposição para lidar com a disrupção, em vez de resistir a ela, também fortalece a capacidade de adaptação sob pressão, contribui para desenvolver resiliência nas equipes e permite manter o foco em diferentes objetivos ao mesmo tempo. O resultado são times que combinam conhecimento técnico profundo com uma compreensão real das necessidades dos clientes e conseguem conectar esses dois aspectos de forma consistente.
A busca pelo desconhecido
Em um cenário tecnológico que se reinventa constantemente, aprender em ritmo mais rápido do que as próprias mudanças se torna uma competência estratégica. Líderes que se expõem a culturas e contextos desconhecidos e que incorporam, de forma ativa, pessoas com perspectivas diferentes ampliam sua capacidade de compreender problemas por outros ângulos. Esse processo desenvolve uma forma particular de empatia: o olhar de quem vem de fora e ainda faz perguntas que, muitas vezes, quem já está imerso naquele ambiente deixou de fazer.
Em um ecossistema tecnológico global, essa capacidade é essencial: ela mantém as equipes focadas na criação de produtos multidimensionais, completos, mais abrangentes, intuitivos, acessíveis e relevantes localmente, em vez de otimizados para uma única rota ou método.
Líderes que promovem a diversidade trazem mais do que defesa de um princípio; costumam adotar um estilo de comunicação diferente e demonstrar maior curiosidade. Ao fazer perguntas e abrir espaço para diferentes pontos de vista, surgem novas descobertas e, com mais contexto, tornam-se possíveis soluções mais completas.
Quando se trata da adoção de tecnologias mais recentes, como a IA, essa experiência faz diferença. Vieses não controlados em dados de treinamento ou no desenho dos sistemas não ficam restritos ao laboratório, eles se ampliam à medida que a tecnologia ganha escala. Em processamento de linguagem natural, por exemplo, modelos treinados com entradas demográficas limitadas podem interpretar consultas de forma equivocada ou reforçar estereótipos. Em ambientes corporativos, essas não são preocupações teóricas: elas afetam a confiança dos clientes, a exposição regulatória e até a receita. Incluir perspectivas diversas em todas as etapas do desenvolvimento significa incorporar o pensamento crítico necessário para atender às necessidades de um conjunto mais amplo de clientes.
Criar tecnologia para todos
Quando as equipes refletem a diversidade das pessoas que atendem, tornam-se mais capazes de desenvolver soluções práticas, acessíveis e inclusivas. Quando essa representatividade não existe, as lacunas acabam se transformando em falhas nas próprias soluções: ferramentas de recrutamento que reproduzem vieses históricos de gênero, tecnologias de saúde que ignoram aspectos da fisiologia feminina e assistentes de voz que interpretam de forma inadequada padrões de fala de mulheres. Esses não são casos isolados, mas consequências previsíveis de processos de desenvolvimento marcados pela homogeneidade.
Mulheres frequentemente trazem um estilo de comunicação distinto, que vai além de perguntar apenas o que um sistema faz. Também procuram entender por que ele foi concebido daquela forma e para quem foi pensado. Esse impulso de explorar motivações, contextos e impactos do problema amplia a compreensão da situação e contribui para soluções mais completas. É a diferença entre uma correção pontual e um design que realmente atende a todos. Líderes que aprendem a acolher o que é diferente e a considerar outros pontos de vista, em vez de resistir a eles, tendem não apenas a desenvolver mais resiliência, mas também a se tornar mais eficazes.
Neste Mês da Mulher e além dele, a questão já não é mais se a diversidade importa, mas se as empresas irão tratá-la como a prioridade estratégica que sempre foi. Isso significa ir além de diretrizes impostas de cima para baixo e construir as bases que realmente permitem que as mulheres avancem e permaneçam nas empresas: mentoria estruturada, oportunidades concretas de desenvolvimento e, de forma indispensável, flexibilidade incorporada ao modo como o trabalho de fato acontece.
Quando as empresas oferecem às pessoas com diferentes trajetórias as condições e o espaço para crescer, elas recebem em troca algo que não pode ser imposto por diretrizes: a amplitude de perspectivas que impulsiona a inovação de forma genuína.









