A nova fronteira do 5G: monetização e inovação impulsionadas por APIs

Por Tony Tascino, CTO da Engenharia Brasil

Salvador, 16/05/2025 – A introdução da tecnologia 5G prenuncia uma revolução na conectividade como a conhecemos, viabilizando velocidades ultra-rápidas e latência mínima. Estudos da IDC indicam que a tecnologia deve movimentar US$ 25,5 bilhões no Brasil até o final do ano, considerando apenas a impulsão de tecnologias como inteligência artificial, Big Data & Analytics, computação em nuvem, segurança, realidade aumentada/virtual, robótica e IoT.

Contudo, o potencial transformador desta tecnologia para operadoras e empresas de telecomunicações, setor que marcou um crescimento de 5,2% em 2024, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), transcende a mera oferta de incrementos nas capacidades existentes, residindo na habilidade de reconceituar a própria rede como uma plataforma dinâmica para negócios e inovação. A viabilização desse valor essencial depende de um elemento tecnológico fundamental: as Interfaces de Programação de Aplicações (APIs).

Tradicionalmente, as redes de telecomunicações operam majoritariamente como canais de transporte de dados, com uma monetização centrada primordialmente na comercialização de planos de dados e conectividade. A tecnologia 5G, entretanto, representa uma expansão radical dessa perspectiva.

Suas características intrínsecas, como a capacidade de fatiamento da rede (Network Slicing), a computação de borda (Edge Computing) e o controle granular da Qualidade de Serviço (QoS), capacitam as operadoras a provar muito mais do que o simples acesso à rede, elas podem oferecer capacidades específicas da rede sob demanda.

A rede como plataforma

Neste contexto, as APIs assumem um papel central. Ao expor funcionalidades específicas da rede 5G por meio de interfaces seguras e padronizadas, as operadoras convertem sua infraestrutura em uma plataforma programável.

Essa abordagem permite que desenvolvedores e empresas de diversos setores requisitem recursos de rede em conformidade com suas necessidades específicas, por meio de modelos de pagamento por uso ou planos dedicados, estabelecendo, assim, novas e substanciais fontes de receita para o setor de telecomunicações.

As aplicações práticas dessa abordagem são diversas e abrangentes. No setor de entretenimento, por exemplo, empresas de jogos em nuvem ou metaverso podem solicitar, via API, latência ultra-baixa e banda reservada especificamente durante sessões de uso intensivo ou interações virtuais, garantindo uma experiência superior ao usuário final.

Na área da saúde digital, setor que já aumentou seus investimentos em TI em mais de 40% em 2024, segundo a TechTarget, um hospital poderia exigir, em tempo real, uma fatia de rede com prioridade máxima e segurança reforçada para procedimentos como cirurgias remotas ou a transmissão de dados críticos de pacientes, garantindo a indispensável confiabilidade.

O espectro de funcionalidades passíveis de exposição via API é amplo, incluindo, entre outros, o controle de latência, a geolocalização aprimorada, a priorização e reserva de banda, o acesso a recursos de edge computing para processamento local, e a implementação de modelos de mobilidade flexíveis integrados diretamente às aplicações.

Consequentemente, a monetização pode se concretizar por meio de pagamento por uso (pay-per-use), subscrição de planos que garantam Níveis de Acordo de Serviço (SLAs) específicos, ou por meio de integrações que permitem o faturamento direto ao consumidor final pela aplicação que consome o recurso de rede.

Perspectivas futuras

Entretanto, a implementação deste modelo em escala global depende intrinsecamente da padronização. Uma eventual fragmentação, na qual cada operadora exportaria suas APIs de forma proprietária e distinta, constituiria uma barreira significativa para desenvolvedores e empresas que além de criarem soluções interoperáveis e universais. Ciente deste desafio, a indústria mobilizou-se por meio da iniciativa Open Gateway, liderada pela GSMA.

Este esforço colaborativo é fundamental para a definição de padrões globais para as APIs de rede. Ao estabelecer um framework comum, o Open Gateway objetiva simplificar o estímulo ao desenvolvimento e à adoção comercial dessas novas capacidades, acelerando a inovação em todo o ecossistema.

É inegável que a concretização plena desta visão enfrente obstáculos. A adoção pelo mercado ainda se encontra em seus projetos incipientes, questões regulatórias exigem navegação criteriosa, a complexidade inerente à exposição e gestão segura e eficiente dessas APIs requer conhecimento especializado e plataformas tecnológicas específicas. Contudo, a trajetória evolutiva do setor aponta inequivocamente para a transformação da rede em uma plataforma de serviços viabilizada por APIs.

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